
Babás eletrônicas da fé: crianças buscam um Cristo virtual e não espiritual
Fernando Hessel
Não basta ter muita idade! Basta apenas ter no mínimo dois anos de vida para a alfabetização digital invadir o universo das crianças. Esta afirmação não depende de muita pesquisa e, sim, de uma simples e fácil constatação. Basta apenas você jogar um pequeno celular de tela plana sem teclas analógicas nas mãos de um bebê para ficar de boca aberta com tamanha desenvoltura dos pequenos regalos. É importante lembrar que, tempos atrás, os bebês eram fortemente amarrados pelos cueiros e mal abriam os seus olhos cheios de remelas.
Para comprovar estas afirmações sobre as crianças e as ferramentas de comunicação confira a pesquisa feita pela empresa Nielsen. A venda de celulares no período do Dia das Crianças superou outras tradicionais datas do varejo como Dia das Mães e Dia dos Pais. De acordo com a Nielsen, já na divisão por celulares, cerca de 8% dos aparelhos foram comercializados em outubro do ano passado, abaixo dos meses do Dia dos Pais (agosto) e Dia das Mães (maio) de 2010. “O Dia das Crianças é uma das datas mais importantes para o segmento, pois o celular e, principalmente, os smartphones acabaram substituindo presentes tradicionais, como brinquedos e roupas. As crianças querem acessar redes sociais, games, enviar torpedos”, diz Thiago Gustavo Gomes Moreira, diretor de Telecom da Nielsen Brasil em entrevista ao site Teletime. Hoje, a criança nasce e já fala.
Em um recente evento de uma importante indústria multinacional de aparelhos celulares da Finlândia, pude constatar aquilo que virá pela frente no que diz respeito às tecnologias de comunicação e interações. Aqueles que criticam a tecnologia pela falta de interatividade entre os humanos ficarão estarrecidos com os novos desenvolvimentos que virão num breve tempo. São descobertas feitas em laboratórios nos arredores de Manaus, na Amazônia.
Em breve, será possível a uma criança tetraplégica sobreviver, em todos os sentidos da palavra, apenas com os movimentos dos olhos. Alguns softwares estão em fase final de testes e prometem que qualquer pessoa movimentará um mouse virtual apenas num piscar ou mover de olhos.
A seta do smartphone se movimentará para a direita, quando os olhos se dirigirem à direita, esquerda, acima, abaixo e assim sucessivamente, conforme a configuração do aparelho. Quando alguém necessitar confirmar ou clicar; apenas num piscar de olhos o sistema entenderá positivamente a ação.
Desta forma, felizmente a humanidade tenta tornar a tecnologia um pouco mais humana. Em 1994, eu estava nos Estados Unidos, numa de minhas viagens solitárias, daquelas que muitos jovens fazem com apenas uma mochila nas costas. Isso mesmo, sozinho, uma opção que facilita reflexões profundas sobre o nosso mundo sem interferências. Eu estava hospedado num paupérrimo e pequeno quarto de hotel na Collins Avenue situado em Miami Beach. Eram dez horas da manhã de domingo e ali estava um “pastor eletrônico”. Isso mesmo! Hoje os identificamos assim. Mas, na década de 90, era um simples pastor que utilizava um programa de televisão para propagar o evangelho. Até aí nada de diferente. Mas, em dado momento, ele convocou ao ofertório e, no mesmo instante, se dirigiu às câmeras, informando inúmeras contas bancárias. Para aqueles que quisessem também contribuir num prazo de 30 dias, havia a possibilidade de pagamento através de cartões de crédito. Esta cena ficou muito marcada em minha memória pela previsão de futuro da igreja diante de tanta audácia daquele clérigo eletrônico. Hoje, de tanto vermos estas prática, parece-nos algo infinitamente comum e já arraigado em diversas denominações.
No Brasil, sei que muitas instituições religiosas ainda usam o antigo envelope de dízimo, mas sei de muitas igrejas que já têm as transferências bancárias agendadas para todo dia dez de cada mês, naquilo que podemos denominar ADEA (Agendamento de Dízimo Eletrônico Automático).
Se alguém me perguntar sobre estes avanços dentro das igrejas, digo sem demora que ainda prefiro algumas formas de maneira mais analógica. Como aquela viúva pobre faria sua oferta nos tempos atuais? Se me questionarem mais incisivamente do motivo deste comportamento antiquado de minha parte quanto às tecnologias incorporadas na comunidade, não saberei responder. Talvez seja pelo fato de não ter visto ainda Deus ou Jesus Cristo em recursos holográficos em tempo real no púlpito de minha igreja. Mas o fato é que os símbolos da igreja estão se transformando a passos largos e sentimos uma desconstrução de eventos importantes que ajudaram a reforçar a fé cristã.
Eis aqui à nossa frente o desafio de acompanharmos a tecnologia da fé, sem perder a essência gerada desde a criação. Como poderemos educar os nossos filhos na escola dominical, se um videogame está ultrapassando qualquer interesse pelo tão eficiente flanelógrafo de historinhas infantis? A tecnologia, seus males e benefícios são discutidos fora da igreja. Mesmo nos meios educacionais seculares, encontramos inúmeras dificuldades para oferecer um giz de cera a uma criança no lugar de uma pintura digital, que pode ser feita com um simples arrastar dos dedos numa tela de um tablet. A criança moderna já adquiriu a capacidade de descobrir o mais obscuro da humanidade, se tomarmos por base a nossa realidade limitada dos seres mais adultos. Um menino já é capaz de ligar um automóvel sozinho com um simples apertar de botão. Não é estranho também que ele pegue o seu celular às escondidas e compre vários jogos online, decorando sua senha do cartão de crédito, ou envie torpedos ou manuseie uma arma de fogo.
A realidade nos assusta e, em muitos casos, escondemos estes fatos jogando-os para o último plano de consciência. Atualmente, os meios de comunicações são supérfluos nos noticiários, mostrando apenas os fatos e deixando de lado as discussões aprofundadas sobre os temas.
Educar as crianças no seio cristão será o grande desafio dos próximos anos, nos quais os valores estão em veloz transformação. Talvez esta discussão se torne antiga e ineficaz em pouco tempo. Uma palavra escrita aqui e agora amanhã poderá ter uma nova tradução ou deixar simplesmente de existir. Mas é universal e consenso de que os valores cristãos pregados há milênios não mudaram mesmo diante de tanta evolução. Deus continua existindo, e isto é fato!
É fato constatado que muitos bandidos foram cristãos ou têm pais evangélicos. Quais teriam sido as lacunas na educação religiosa que os tornaram fora da lei? Podemos dizer que a culpa é da igreja, do lar ou da sociedade? São vários os fatores que levam a esta decadência social e espiritual na vida de uma pessoa. Mas o importante não é levantar culpados, mas trazer luz a uma reflexão das mais diversas formas de orientação que uma criança deve ter na sua caminhada cristã. Talvez falte maior ênfase nos valores, identidade nas abordagens bíblicas e contextualização no ensino nas igrejas. É de suma importância o ensino continuado da igreja e do lar cristão. O que existe muito hoje é a transferência de responsabilidades na educação infantil. Muitos pais irresponsáveis atribuem a educação plenamente às instituições de ensino e à Escola Dominical. Diversos responsáveis não reafirmam os valores pregados aos filhos. Certamente, uma receita clássica que não tem erro é que todos falem a mesma língua.
Por enquanto, a ciência não conseguiu tecnologia suficiente que substitua a verdade nos olhos dos que ensinam, quer sejam eles pais ou professores. Estamos, neste tempo tecnológico, uníssonos no caráter com os nossos filhos? Ao que tudo indica, boa parte de nossas crianças está buscando solitariamente coerência nos meios cibernéticos, numa atitude que passa desapercebida por muitos pais. É muito cedo para transferirmos este espírito de escolha a estes seres tão carentes de lógica. A babá eletrônica é importante, mas, se os pais não tocarem nos seus filhos, esta tecnologia não surtirá efeitos. Será que as nossas crianças não estão buscando Deus nos videogames?
O Fernando é membro da IPI Central de Palmas, TO, jornalista, especializado em Diplomacia Brasileira pela USP, Pós-Graduado em Administração Gestão de Negócios e Diretor da TV Bandeirantes no Tocantins.
(twitter: @fernandohessel; e-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )











